Ontem e Hoje

A T E N Ç Ã O: ESTE BLOG É ESCRITO POR MIM, ISMAEL CIRILO, 87 ANOS. PODEM ME CHAMAR DE SOIÉ. (ONTEM E HOJE está sendo publicado na conta de meu filho Cláudio, por isso o perfil dele é que está aparecendo. Coisas do Blogger Beta!).

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Alguém que sempre quer saber mais: inquieto, crítico, curioso.

domingo, janeiro 15, 2006

ALEGORIA DE PRIMAVERA

Primavera de 1974, dois anos antes de a nave espacial Viking pousar em Marte, Soié Bar completava nada menos que 8 anos de funcionamento.


Meus filhos todos, na medida em que atingiam idade compatível, colaboraram no tradicional e conhecido bar & lanchonete, freqüentado pela maioria dos novaerenses da geração Beatles, Led Zepelin, The Dors, Black Sabath e outras bandas.

O Soié Bar tornou-se o tradicional ponto de parada das Escolas de Samba: Desce Ladeira, Lá de Lá, Manjahy e do famoso bloco carnavalesco “Boca de Gole”. Também devo citar a famosa “Bandinha dos Farrapos”, cujos integrantes, até hoje, param em frente ao extinto Soié Bar durante os Carnavais, me homenageando.

[Tudo isso é a mais pura verdade, tanto é que pode ser confirmada pela Comunidade do Orkut: "Soié Bar: eu já fui!"].

Hoje, rememoro o acontecido com o meu sexto filho, Jaques Costa, na época com 15 anos, estudando no Colégio Estadual Nossa Senhora de Fátima, onde freqüentava a 7ª série do primeiro grau.

O referido Colégio mantinha disciplina rígida e qualidade de ensino invejadas em toda região, haja vista que a maioria daqueles que lá estudaram exercem, hoje, importantes cargos em empresas de renome nacional. Jaques, por exemplo, além de estar bem casado com Sandra Cristina e ter dois lindos filhos (Vinícius e Rafael Augusto) trabalha na Andrade Gutierrez como Engenheiro de Segurança do Trabalho, na construção da Usina Hidrelétrica de Peixe, em Tocantins.

Dirigia a escola o ilustre Padre Luiz da Fonseca Torga, Capelão do Hospital Nossa Senhora das Graças. Era pessoa muito íntegra e respeitada. Tinha como auxiliares os regentes Trajano Martins Bueno (Juiz de Paz), Olga Batista Galo, Bernadete Araújo, Geraldo Galvão e outros.

Tudo aconteceu, de acordo com o relato do próprio Jaques, de férias aqui em Nova Era, conforme passo a descrever:

Jaques me ajudava no “Soié Bar”. Certo dia, recebeu uma encomenda de carnes congeladas que seriam utilizadas no preparo das guloseimas e quitutes para os fregueses. As iguarias chegavam embaladas em caixas de madeiras e, para não serem violadas, eram cinturadas por uma fita metálica de 1,5 cm de largura, conhecida como “arco de barril”. Para rompê-la, usávamos um alicate universal, pois o arco metálico era travado com grampos resistentes.

Após receber, desembalar e armazenar a mercadoria no freezer, o rapaz teve brilhante idéia: pegou o alicate e confeccionou 21 apitos com pedaços da fita metálica. Vinte e um!!!

Para emitir som, o apito era levado até a boca e com o polegar e o dedo indicador, fechavam-se suas laterais. Ao assoprá-lo, obtinha-se um som agudo e ensurdecedor, principalmente em ambiente fechado.

Sempre de acordo com o relato do principal envolvido, prossigo:

Jaques levou os apitos para o colégio, no dia seguinte. Era uma linda manhã de início da Primavera: 21 de setembro. No trajeto de casa à escola, distribuiu-os aos colegas que encontrou. Não sobrou um!

Meu filho se recorda de alguns beneficiários de seu inusitado presente: o primo José Luiz Delfim, Estácio Magalhães, Eugênio Carneiro e o vizinho Bráulio Vilar, dentre outros. Eram também seus colegas de classe: o primo Carlos William Delfim, atualmente grande médico em Belo Horizonte; Iran Batista, excelente técnico mecânico da Oficina do Isaac, aqui em Nova Era; Sara Oliveira, Desidério, Ricardo Diniz, Leda Fioravante e outros ilustres novaerenses.

Sem nenhuma programação, no horário do recreio, todos que receberam o apito começaram a soprá-lo, produzindo um som ensurdecedor que irritava toda a direção da escola.

Jaques não tinha lugar no imenso e arejado pátio, buscando esconder-se de qualquer maneira, envergonhado e temeroso das conseqüências que poderiam advir pela algazarra insana.

Naquela época, durante o recreio, os meninos não podiam conversar com as meninas! Havia uma linha imaginária dividindo o pátio, sinalizada por uma grande árvore. Os meninos ficavam de um lado e as meninas ficavam do outro.

Pois foi a tal árvore que o salvou: detrás do tronco rugoso, Jaques acompanhava tudo, escondendo-se do Diretor postado à porta da diretoria, enquanto os inspetores anotavam os nomes de cada um dos baderneiros, distinguidos pelos apitos na mão e na boca.

Jaques foi sendo dominado pela tensão, praticamente aterrorizado, sem saber o que fazer ou a quem recorrer. É que a aula imediatamente após o recreio seria ministrada pelo Dr. Salvador Vasconcelos Barros, Promotor de Justiça da Comarca! Tratava-se de uma autoridade extremamente rígida e intolerante, não só na vida civil como também em suas aulas de História; não tolerava um deslize sequer. Todos sabiam disso e alguns tremiam só de escutar-lhe a voz. Pelo menos assim o disse meu filho.

De repente, a sirene toca, indicando o término do intervalo.

Por um lado, Jaques sentiu-se aliviado, pois o “apitaço” acabara. Por outro, seu coração palpitava com intensidade, pois imaginava que algo de ruim poderia acontecer.

Pernas trêmulas, postou-se na fila que cada turma tinha de formar bem defronte à respectiva sala de aula. A dele era quase contígua ao gabinete da Diretoria.

Alguns colegas lhe dirigiam gozações. Outros lhe pediam: “Ei, Jaques, me dá um apito!” Que chateação, que mico! Quanto mais tempo ali na fila, mais acanhado, preocupado e ruborizado ele ficava. Fingia não ser com ele, abaixava os olhos, mantinha-se sério.

Subitamente, surge o Diretor! Seguiam-no os inspetores e professores, sisudos, carrancudos, sérios. Jaques se lembrou das cenas de júri que via na TV: “Um tribunal iria ser instalado bem ali”, imaginou. O réu? Bem, só poderia ser ele mesmo. O crime? Bagunça, incitação à desordem, desacato à autoridade, qualquer coisa passível de punição rigorosa! “Nossa Senhora, ajude-me!”, rezou.

Dr Salvador, dublê de professor e Promotor de Justiça, encaminhou-se para a porta de sua classe e autorizou a entrada dos alunos: primeiro, as meninas; a seguir, os meninos.

Tremendo – não de frio! - Jaques ocupou seu lugar: “Meu Deus, é agora!”

Assentados todos, o temido mestre iniciou um discurso:

- Neste momento, não me interessa saber quem é o responsável pela “alegoria” alusiva à entrada da Primavera. Eu só tenho elogios para essa mente criativa. Pena que a direção do colégio e alguns de meus colegas de profissão não pensem assim e querem punir o cabeça.

Fez uma longa pausa. Caminhou vagarosamente ao centro da sala, cabeça ereta, olhar dirigido para a parede do fundo. O silêncio era total. Parecia que o mundo inteiro silenciava. Jaques suava, tremia, não sabia onde se esconder e não conseguia imaginar uma saída para a situação. Assustou-se com a voz tonitroante do Dr. Salvador:

- Gostaria de parabenizar quem teve essa brilhante idéia. Inda mais, sugiro que outras datas importantes sejam igualmente lembradas, de forma a incentivar a criatividade da manifestação popular.

Os alunos se mantiveram em silêncio. “Seria uma armadilha?”, perguntavam-se.

Mas o Dr. Salvador concluiu:

- Fiquemos por aqui e consideremos que o episódio está encerrado.

Imagino o alívio do Jaques. Ele conta que seus sentimentos viraram pelo avesso: de medroso e humilhado, inchou o peito, experimentou um grande orgulho e se sentiu a pessoa mais importante do colégio.

...

Ao final da quinta aula, quando a caderneta de presença seria distribuída a cada aluno, Jaques não recebeu a sua! Nem os demais colegas do apitaço: “E agora?", pensou.

A resposta veio pela voz da inspetora:

- Fiquem aqui, que o Diretor quer falar com vocês!

Era meio-dia, a fome apertava tanto quanto o medo: “Nem lanchei por causa da bagunça e, agora, tenho ainda de ficar esperando?” Novamente uma reviravolta de sentimentos. Há um minuto, estava todo orgulhoso. De novo, o medo, o pavor, a certeza de punição! Mesmo com o sol a pino, Jaques tremia qual vara verde tocada pelos ventos gelados do vale do Rio Piracicaba, sempre brumoso naquele inverno que terminava. Em instantes, o Diretor entrou na sala e ordenou:

- Quem estiver portando algum apito aqui, que o entregue agora!

Como meu filho não tinha apito nenhum, pois havia distribuído todos, permaneceu calado e quieto, em sua carteira.

Nova ordem, em tom ameaçador:

- Quem tiver apito que o entregue agora!

Aos poucos, alguns foram entregando seu apitozinho improvisado, enquanto outros fingiam não ter nada a ver com aquilo. E o Jaques, quieto.

Finalmente, a sentença:

- Quem teve a coragem de devolver o apito ficará de castigo somente no dia de hoje, até às 13 horas. Os demais, por se omitirem, terão o mesmo castigo durante os outros dias desta semana. Podem ir. Boas tardes!

E assim terminou a improvisada alegoria à chegada da Primavera.

Agora, eu pergunto:
Jaques merecia castigo? Deveria ter-se apresentado? E os colegas que não o denunciaram, foram heróis ou bobocas?